Mês passado, uma cliente chegou até nós com 63 posts salvos no Instagram sobre a Itália. Sessenta e três. Ela tinha uma pasta só de Toscana, outra de Costa Amalfitana, um grupo de WhatsApp com duas amigas que já foram, e uma planilha começada em março que parou na aba “hotéis Roma”. A viagem seria em setembro. Já estamos em julho e, quando ela nos procurou, não tinha nada reservado.
Ela não estava despreparada. Estava soterrada.
Esse comportamento tem nome: obesidade mental. O termo descreve o acúmulo de informação que a gente consome todos os dias sem conseguir digerir. E quando eu trouxe esse conceito para o universo das viagens, num texto meu que saiu recentemente na imprensa, percebi que ele explicava quase tudo o que eu vejo no nosso trabalho. Por isso resolvi escrever aqui no blog, agora na primeira pessoa, com a minha opinião mesmo.
Porque eu tenho uma opinião sobre isso, e ela é menos óbvia do que parece.
Publicado em 06 de julho de 2026

Estela Assis
O que é obesidade mental (e o que ela tem a ver com a sua viagem)
Obesidade mental é o que acontece quando a gente consome mais informação do que consegue processar. Igual comida: o problema não é comer, é comer sem parar, sem critério e sem fome real.
No planejamento de viagem, isso vira um padrão que eu reconheço de longe. A pessoa abre o Google para pesquisar um hotel. Quarenta minutos depois, está assistindo um vídeo sobre os 10 erros que todo turista comete em Paris, lendo uma thread sobre qual arrondissement é superestimado e comparando três seguros viagem que ela nem sabia que precisava comparar.
O resultado não é uma decisão melhor. É uma decisão adiada.
E eu preciso dizer uma coisa que talvez incomode: a culpa não é sua. O conteúdo de viagem foi desenhado para ser consumido, não para ser concluído. Cada vídeo termina apontando para outro vídeo. Cada lista de “imperdíveis” existe para você salvar, não para você decidir. A conta nunca fecha porque ela não foi feita para fechar.
Os números da obesidade mental no planejamento de viagem
Isso não é impressão minha. Uma pesquisa da Expedia Group com a Luth Research, feita em sete países, mediu exatamente esse comportamento.
Os dados: nos 45 dias antes de reservar uma viagem, uma pessoa passa em média 303 minutos consumindo conteúdo de viagem. São mais de 5 horas. Nesse mesmo período, ela visualiza em média 141 páginas de conteúdo. Nos Estados Unidos, esse número chega a 277 páginas.
E tem um dado que eu acho ainda mais revelador: 59% das pessoas começam a planejar sem nem ter um destino definido.

Fonte: Expedia Group + Luth Research
Ou seja, mais da metade das pessoas entra nesse mar de informação sem saber o que está procurando. E aí cada conteúdo novo não aproxima da decisão. Afasta. Porque abre mais uma possibilidade, mais uma comparação, mais uma dúvida.
Cinco horas de pesquisa para uma viagem seria ótimo se essas cinco horas fossem organizadas. O problema é que elas acontecem em pedaços de sete minutos, no carro, na fila do mercado, antes de dormir. Informação fragmentada não vira plano. Vira ruído acumulado.
Quando a pesquisa vira paralisia
Aqui entra a parte que eu vivo na prática, no atendimento dos nossos clientes toda semana.
A dica sem contexto não é dica
Todo conteúdo de viagem que você consome foi feito para uma pessoa que não é você. O casal que disse que aquele hotel em Santorini é perfeito viajou sem filhos, em maio, com outro orçamento e outra expectativa. A dica deles é verdadeira para eles. Para você, pode ser um erro caro.
Eu vejo isso o tempo todo. Um hotel maravilhoso para quem quer agito é um problema para quem viaja para descansar. Um restaurante estrelado é um sofrimento para uma família com uma criança de três anos. Um roteiro com cinco atividades por dia funciona para quem tem 25 anos e disposição de sobra, e destrói a viagem de quem trabalhou o ano inteiro e só queria respirar.
Informação sem contexto não é conhecimento. É só volume.
As opiniões opostas se anulam
O segundo mecanismo da obesidade mental nas viagens: para cada avaliação de cinco estrelas existe uma de uma estrela sobre o mesmo lugar. Um vídeo diz que o restaurante é autêntico. Um comentário diz que é armadilha para turista. Um blog diz que três dias em Lisboa bastam. Outro diz que uma semana é pouco.
Quando as fontes se contradizem e você não tem critério para desempatar, o cérebro faz a única coisa que sabe fazer nessa situação: congela. A pergunta muda de “para onde eu quero ir?” para “será que eu estou escolhendo errado?”. E essa segunda pergunta não tem resposta na internet, porque a internet não sabe quem você é.
A minha opinião: o problema nunca foi a informação
Agora a parte em que eu discordo do discurso comum sobre esse tema.
Muita gente que fala sobre obesidade mental sugere a solução óbvia: consuma menos. Detox digital, menos telas, menos redes. Eu acho essa resposta preguiçosa quando o assunto é viagem.
Porque pesquisar viagem é gostoso. Salvar aquele vídeo de um hotel na Patagônia, mandar print para o marido, sonhar com o destino meses antes de embarcar: isso faz parte do prazer de viajar. Eu não quero que ninguém pesquise menos. Eu mesma sou incapaz de ver um documentário sobre um destino sem abrir o mapa do lado.
O problema não é a quantidade de informação que entra. É a ausência de um filtro que transforme essa informação em decisão.
Pense na diferença entre uma despensa lotada e um cardápio da semana. As duas têm os mesmos ingredientes. Uma gera ansiedade toda vez que você abre a porta. A outra gera jantar.
Os seus 63 posts salvos são a despensa. O que falta é o cardápio.

Membros da equipe Viaje com Estela
O que a gente faz com o excesso de informação dos nossos clientes
É exatamente aqui que entra o meu trabalho como travel designer. E eu quero explicar isso de um jeito bem concreto, porque essa é uma dúvida real que chega para nós direto.
Quando um cliente chega até nós com as pastas salvas, os prints e as recomendações da cunhada, eu não jogo nada fora. Aquilo é matéria-prima valiosa: me mostra o que encanta essa pessoa, que estética ela busca, que tipo de experiência chama a atenção dela sem ela nem perceber.
O meu trabalho é fazer as perguntas que o algoritmo nunca vai fazer. Quantos dias você tem de verdade, descontando o fuso e o cansaço da chegada? Você quer conhecer ou quer descansar, porque são viagens diferentes? Quem viaja com você e o que essa pessoa precisa? O que você aceita gastar mais para ter, e onde não faz diferença economizar?
Com essas respostas, os 63 posts viram 8 escolhas. As 141 páginas viram um roteiro que a pessoa lê e pensa: é isso.
E a cliente da Itália que eu contei no começo? Fechamos o roteiro em duas semanas de trabalho conjunto. Toscana ficou, Costa Amalfitana saiu, e no lugar entrou uma região que não estava em nenhum dos 63 posts salvos, mas que combinava exatamente com o que ela nos contou que queria sentir. Ela embarca em setembro sem precisar abrir uma aba nova.
Se você quer entender como esse processo funciona na prática, a gente explica tudo na página de serviços sob medida.
Como saber se a obesidade mental já travou o seu planejamento
Alguns sinais que eu observo nos clientes que chegam até nós, e que você pode reconhecer em você:
Você pesquisa a mesma coisa mais de uma vez porque não lembra da conclusão anterior. Você tem posts salvos de mais de cinco destinos para a mesma viagem. Você já perguntou a opinião de três pessoas diferentes e saiu mais confusa do que entrou. Você sente uma pontada de cansaço quando pensa em “sentar para organizar a viagem”. A data está chegando e as reservas não saíram.
Se você se reconheceu em dois ou mais desses sinais, o problema não é falta de informação. É excesso sem direção.
Menos abas abertas, mais viagem vivida
A obesidade mental nas viagens é, no fundo, um sintoma do nosso tempo: a gente confundiu acesso com clareza. Ter tudo à disposição não é o mesmo que saber o que fazer com tudo isso.
A minha convicção, depois anos desenhando viagens e de mais de 15 países visitados na minha própria vida, é simples: a melhor viagem não é a mais pesquisada. É a mais alinhada com quem você é.
E alinhamento não se encontra em mais uma aba aberta. Se constrói com escuta, critério e alguém que faça as perguntas certas.
Desacelere e enxergue o mundo. Inclusive na hora de planejar.